A discussão sobre saúde mental em reality shows ganhou força nos últimos anos. Confinamento, provas de resistência, votações públicas e exposição constante fazem parte da dinâmica que atrai audiência e engajamento, mas também criam um ambiente de alta pressão emocional que exige atenção. Quando o entretenimento se combina com isolamento, competitividade e julgamento público permanente, os impactos psicológicos deixam de ser secundários e passam a demandar cuidado.
Reality shows não são, por si, prejudiciais. No entanto, envolvem fatores reconhecidos pela literatura científica como potenciais geradores de estresse e sofrimento psíquico, especialmente quando não há suporte estruturado e contínuo.
Confinamento e vigilância permanente
Reality shows de confinamento impõem restrição de contato com o mundo externo, rotinas rígidas, sono irregular e ausência de privacidade. A exposição é contínua, muitas vezes 24 horas por dia.
Uma revisão publicada na The Lancet Psychiatry aponta que experiências de quarentena e isolamento estão associadas a sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva, especialmente quando há duração prolongada e sensação de imprevisibilidade (Brooks et al., 2020, The Lancet Psychiatry).
Além disso, a privação de sono comum em contextos de alta estimulação e tensão está relacionada ao aumento da reatividade emocional e à redução da capacidade de regulação das emoções, conforme revisão publicada na revista Sleep Medicine Reviews (Palmer & Alfano, 2017).
Em ambientes de competição e julgamento constante, esses fatores podem se somar e intensificar significativamente o desgaste psicológico, mesmo em pessoas previamente saudáveis.
Quando o estresse se manifesta no corpo
A relação entre saúde mental e saúde física é amplamente reconhecida. O estresse crônico pode desencadear alterações cardiovasculares, imunológicas e neurológicas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o burnout na CID-11 como fenômeno ocupacional decorrente de estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso (OMS, 2019). Embora reality shows não sejam ambientes corporativos tradicionais, envolvem exigências intensas, pressão por desempenho e exposição constante, fatores que também podem contribuir para sobrecarga emocional.
Casos de participantes que deixam programas por crises de ansiedade, exaustão extrema ou intercorrências médicas ilustram como o sofrimento psíquico pode ganhar expressão física em contextos de alta pressão.
Assédio, conflitos e pressão social
Ambientes altamente competitivos tendem a intensificar conflitos interpessoais. Quando esses conflitos ocorrem sob vigilância pública e repercussão nas redes sociais, a experiência pode se tornar ainda mais complexa.
Uma revisão publicada no Psychological Bulletin indica que experiências de humilhação e agressão social estão associadas a aumento de sofrimento psicológico e sintomas depressivos (Kowalski et al., 2014).
Não apenas participantes são impactados. Profissionais envolvidos na produção também atuam sob prazos rígidos, pressão por audiência e alta responsabilidade, fatores reconhecidos como geradores de estresse ocupacional.
A pressão que continua após o programa
Para muitos participantes, o maior impacto ocorre fora do confinamento. Redes sociais ampliam críticas e podem transformar conflitos do jogo em ataques pessoais.
Uma revisão publicada na JAMA Pediatrics identificou associação significativa entre cyberbullying e aumento de sintomas depressivos e risco de comportamento suicida (Hamm et al., 2015).
O caso da participante Hana Kimura, do programa japonês Terrace House, que morreu em 2020 após sofrer ataques virtuais contínuos, gerou repercussão internacional e ampliou o debate sobre responsabilização por cyberbullying (BBC News, 2020).
Esses episódios reforçam que a exposição pública pode prolongar o sofrimento psicológico mesmo após o fim do programa.
O que esse debate revela
Reality shows ajudam a evidenciar como contextos de alta exposição, competitividade e pressão emocional afetam a saúde mental. São dinâmicas que, em diferentes escalas, também estão presentes em ambientes corporativos, escolares e sociais.
Avaliação prévia, acompanhamento psicológico durante períodos de alta pressão e suporte estruturado após situações críticas são medidas fundamentais para reduzir riscos psicossociais.
Diante desse cenário, iniciativas de prevenção e cuidado deixam de ser opcionais. A Caliandra Saúde Mental atua no desenvolvimento de estratégias de identificação de riscos psicossociais, preparo de lideranças e implementação de programas estruturados de apoio emocional. Porque saúde mental exige planejamento, estrutura e acompanhamento contínuo dentro e fora das telas.




